Mata Atlântica tem água de boa qualidade em 6,9% dos rios
Dados são do relatório Retrato da Qualidade da Água de 2022
Dados são do relatório Retrato da Qualidade da Água de 2022
Levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica mostra que apenas 11 pontos (6,9%) dos rios do bioma em monitoramento pela entidade têm água de boa qualidade.
A edição deste ano do relatório O Retrato da Qualidade da Água nas Bacias Hidrográficas da Mata Atlântica considera que a maioria (75%) dos pontos dos rios tem água de qualidade regular, enquanto 16,2% apresentam qualidade ruim e 1,9% é classificada como péssima.
A pesquisa foi financiada pela marca Ypê, de
produtos de limpeza e higiene.
Para elaborar o
documento, a fundação adotou como parâmetro o Índice de Qualidade da Água (IQA)
e contou com a colaboração de 2,7 mil voluntários que integram o programa
Observando os Rios, em atividade desde 2015. A equipe de voluntários foi a
campo para realizar coletas mensalmente, no período de janeiro a
dezembro de 2022, atingindo o total de 990 análises em 160 pontos de
120 rios e corpos d'água. Em relação à abrangência geográfica, ressalta-se, no
relatório, que, ao todo, o trabalho abrange 74 municípios de 16 estados que
integram o bioma Mata Atlântica.
Em 2021, houve
redução no número de coletas, por causa da pandemia de covid-19. No total,
106 pontos foram analisados.
Ao comparar os
resultados, observou-se que a qualidade média da água permaneceu a mesma,
"com indicativo de pequena melhora". Segundo a pesquisa, os pontos
com qualidade boa passaram de 7 para 8; os de qualidade regular, de 75 para 80;
e os de qualidade ruim caíram de 21 para 15. Assim como no ano anterior,
houve três pontos com qualidade péssima: todos, mais uma vez, no Rio
Pinheiros, em São Paulo.
Segundo a diretora
de Políticas Públicas da fundação, Malu Ribeiro, os números refletem a
influência da presença humana. "São áreas bastante antropizadas [alteradas
pela ação humana]. Para que a gente tenha qualidade de água boa,
seria importante que esses pontos, quando são nascentes, mananciais, rios
de classe 1 e 2, estivessem realmente protegidos, sem receber influência de
poluição de carga difusa. A amostragem apresenta exatamente a fragilidade
dos nossos recursos hídricos. Próximo de grandes centros urbanos ou de
áreas com grandes atividades agrícolas e industriais, esses mananciais não
estão protegidos e se situam, em média, na classe 3, isto é, com qualidade
praticamente regular. Isso é um alerta", diz Malu.
Para o diretor do
Instituto Nacional da Mata Atlântica, Sérgio Lucena, os dados apresentados pela
fundação são "chocantes, mas não surpreendentes". Ele lembra que
os números não têm mudado de modo significativo ao longo dos anos, como
deveria ocorrer. "Infelizmente, porque precisam mudar para melhor. Os
parâmetros são muito ruins, e isso é, com certeza, uma consequência não só do
adensamento populacional, mas do mau uso da água e do solo, da terra. Na zona
rural, o mau uso está provocando contaminação e, na área urbana, sobretudo, a
falta de saneamento básico".
Metodologia
Em relação à
metodologia, Malu explica que ela se baseia em normas nacionais e
internacionais de qualidade da água. "Nós seguimos a Resolução Conama n°
357, que estabelece os parâmetros químicos, físicos biológicos e de percepção
que devem ser minimamente aferidos para se obter o IQA. O nosso kit proporciona
a mesma análise laboratorial que é feita pelos gestores do poder público no
Brasil e em diversos países", afirma. "Esses parâmetros,
consolidados, são somados, e a qualidade da água, então, é classificada em
faixas, que variam de boa a péssima. O nosso kit só não faz a medição
de metais pesados."
Sérgio Lucena
comenta que, embora os dados do estudo tenham sua importância, devem ser lidos
com reserva, já que não abrangem a totalidade de impactos, como a de rejeitos
químicos e de agrotóxicos. "Essa metodologia captura os parâmetros mais
importantes da qualidade de água para o uso doméstico, industrial, agrícola,
mas não é uma análise que faça um diagnóstico do uso de agrotóxico. Isso é
importante lembrar. Ela trata das questões de turbidez, contaminação biológica,
quantidade de nitratos etc, que refletem bem a poluição por esgoto, por
lixiviação [retirada de nutrientes de forma natural] do solo", ressalta.
"Não que não
seja boa, é uma metodologia adequada, porque, inclusive, é um processo de
participação comunitária", afirma o diretor, acrescentando que,
atualmente, grande parte dos estudos que têm recortes a partir dos efeitos das
indústrias na água contam com recursos de agências de fomento à pesquisa.
Financiamento
O estudo foi
financiado pela marca Ypê, que já foi responsável por despejar grande volume de
resíduos químicos no Córrego do Ajudante, afluente do Rio Tietê, em
meados de março de 2019. Com a contaminação da água, ocorreu a morte de
centenas de peixes.
A Agência Brasil pediu um posicionamento da marca Ypê sobre os recursos destinados à pesquisa, perguntando se não haveria conflito de interesse, mas a empresa não deu retorno até a publicação desta matéria.
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